Contos da Harpia Volume 1 - O Trem Abandonado
O Trem Abandonado
Sabia que aqui em Marble Valley já teve uma ferrovia? Sim! Com trem e tudo! Minha mãe e eu estavamos assistindo um filme que se passava em um trem, até que eu perguntei:
- Não seria legal se tivesse algo assim por aqui?
Ela sorriu e disse que na verdade tem! Aparentemente os trilhos dão uma volta pela cidade inteira. Isso em si já me deixou muito feliz. Nunca fui em nenhum trem antes e convidar o resto do pessoal ia tornar a viagem ainda melhor.
No dia seguinte, antes mesmo de começar a aula, me encontrei com a Mary, Simon e o Murphy e agi de maneira leve e tranquila, dizendo:
- Gente!! Tem um trem aqui!! Vocês sabiam!??
Eu fiquei balançando o Murphy pra frente e para trás, enquanto praticamente gritava. A Mary achou bem engraçado, eu acho.
O Simon bateu de leve na minha cabeça com o livro que estava lendo, chamando minha atenção. Ele me corrigiu:
- Na verdade, o correto é “Tinha um trem aqui”. Ele deixou de funcionar a muito tempo atrás. Na minha opinião o dono apenas pensou que o trem ficou ultrapassado.
Ao ouvir isso, me entristeci. Mary curiosa como sempre pergunta:
- Como assim todas as atividades pararam? Eles não venderam o trem, nem nada do tipo?
Simon negou com a cabeça, e Murphy logo colocou um braço no meu ombro e disse com um tom de empolgação.
- Vocês ouviram o sabichão! O trem continua lá, ou seja, após a aula bora dar uma passada nessa tal ferrovia, assim você pode ver como as coisas funcionavam!
Ao ouvir isso, eu levantei os braços e comemorei. O horário de aula parecia se arrastar durante o dia. Tudo o que queria fazer era sair logo para irmos até a ferrovia.
Avisei a minha mãe por telefone que ia passar o tempo com meus amigos, ela sempre concorda, então dessa vez não foi diferente. E então, nos reunimos na frente da escola. Murphy apontando o óbvio perguntou:
- Alguém sabe onde fica essa tal ferrovia?
Eu e Mary trocamos olhares de pura confusão, enquanto nossa cabeça automaticamente se virou para Simon que segurava com a boca um lápis e vai até a mochila da Mary, pegando o mapa da cidade que ela sempre carrega. Rabiscos e marcações estão espalhados por muitos locais diferentes. A gente vem usando esse mesmo mapa a quase um ano, algo me diz que precisamos trocar por um novo. Circulando uma área mais reclusa da cidade, Simon nos explicou:
- Aqui é a ferrovia. Após todos os passeios, o trem parava aqui pelo restante do dia. Infelizmente é meio afastado da cidade. É bem pertinho do antigo teatro.
Mary suspirou cansada:
- Esse lugar é super longe! Até chegarmos lá vai estar anoitecendo.
O Murphy tirou do bolso um celular enquanto de maneira confiante resolvia nossos problemas:
- De fato seria um problema, mas por sorte, temos o motorista perfeito para resolve-los.
E após uma rápida ligação, alguns minutos se passam e a pessoa que o Murphy ligou chega. Quem mais poderia ser, se não fosse o Senhor Conver. Ainda no banco do motorista, ele acena para nós enquanto fala alegremente:
- Ouvi dizer que pediram um táxi!
A gente correu até o banco de trás do carro, enquanto o Murphy como de costume sentou no da frente. O Senhor Conver cumprimentou todos e perguntou qual era a confusão que a gente ia arrumar hoje, coisa que ele sempre pergunta quando ligamos. Eu já respondi na hora:
- Vamos explorar aquele trem abandonado na ferrovia! Você já chegou a viajar nele em algum momento?
O rosto do Senhor Conver fica tão pálido quanto papel enquanto dirige, perdido em seus pensamentos. Murphy querendo alegrar a situação, exclama:
- É claro que ele conhece, é praticamente um fóssil vivo a essa altura!
O sorriso do Senhor Conver retorna novamente, enquanto ele ri junto com o Murphy. Finalmente, respondendo minha pergunta:
- Tua hora vai chegar também, garoto! Sobre esse trem, eu já fui algumas vezes sim! As viagens eram agradáveis. Sem dúvida era um dos melhores passa tempos da cidade.
Conforme ele conta essa história, minha mente vaga, fico me imaginando dentro desse trem, com as cenas do filme que assisti noite passada e as descrições da história. Me pergunto se alguma cidade próxima tem um funcionando ainda.
Escuto estalos na frente do meu rosto, e meu pensamento rapidamente é cortado. Simon estava estalando os dedos enquanto cortava meu barato:
- Acorda ai Max! A gente já chegou.
Eu saio do carro junto com o restante do pessoal, e me despeço do Senhor Conver. Ele adenda para nós:
- Qualquer coisa, só ligar que eu venho buscar vocês!
O carro dele parte de volta a cidade, enquanto ficamos aqui na entrada da ferrovia. Mary confusa olha aos arredores e comenta:
- Pensei que teria alguém por aqui.
Ao que olhamos em volta, percebemos um local completamente destruído e vandalizado, tábuas de madeira jogadas, sujeira pra todo lado e nem sinal do meu trem. Isso em si me desanimou demais. Simon piorando a situação acrescenta:
- O trem deveria estar aqui.
Murphy novamente tentando me animar, olha para o horizonte e avisa:
- Eu estou vendo uma construção lá na frente com algumas janelas, que tal dar uma olhada?
Ainda decepcionado concordo com a ideia e seguimos até o local. Simon me questiona:
- Sério que você nunca viu um trem? Você não veio do Reino Unido?
Encaro o Simon nos olhos, e digo em um tom pleno:
- Eu era pobre.
Ao chegar na estrutura que mais parecia uma casa abandonada, se revela ser a antiga bilheteria da ferrovia. No centro tinha um balcão circular de madeira onde provavelmente ficava o balconista. Nas paredes alguns horários de trem estavam a mostra, esquecidos pelo tempo. Também vandalizado com spray.
Acho que a Mary notou minha infelicidade com a situação, e fez algo bem bacana. Ela correu até o balcão da bilheteria e pegou o que lembro ser um chapéu dos funcionários do trem, que estava jogado no chão. Ela coloca na cabeça e seu comportamento muda por completo:
- Ouvi dizer que vocês querem adentrar meu trem?
Ela diz com um estranho sotaque pirata. O Murphy logo pega do chão alguns velhos bilhetes do trem e mostra animado a Mary enquanto a responde:
- Oh! Minha nobre maquinista! Viemos apreciar a sua linda beleza junto com a do trem!
Ela estende as mãos, ainda mantendo aquele sotaque:
- Arrr! Mostre-me os bilhetes, ou andarão na prancha!
O Simon pergunta:
- O que piratas e trens têm em comum?
Então a Mary se aproxima dele com um olho fechado e uma mão no formato de um gancho, o reprendendo:
- Não questione a capitã!
Murphy rapidamente me da um empurrãozinho me entregando um dos bilhetes:
- Pega rápido viu, não vai querer irritar ela.
Eu logo entro na brincadeira, pegando o bilhete que Murphy me ofereceu e finjo ser um fotógrafo tímido:
- Uh... com licença moça! Eu vim fotografar esse belo trem, poderia aprovar meu bilhete?
Entusiasmado entrego-a enquanto vejo ela manchando a própria mão com um potinho de tinta que tirou da mochila. Com um rápido movimento sua mão carimba meu bilhete.
- Bem-vindos ao Expresso Harpia, tenha uma boa viagem!
Ela assume uma pose autoritária e começa a nos guiar mais afundo na bilheteria. Nos mostrando alguns quadros de horários e olhando através de janelas. Ela informa, apontando para o quadro de um homem velho.
- Esse era Mary segundo. O dono do trem.
Simon novamente questiona:
- O nome dele era Mary?
Ela levanta a voz, perdendo o sotaque pirata:
- O nome de todos são Mary!!
Logo quando começo a rir da situação, o Murphy que estava prestando atenção nas janelas da bilheteria, apenas nos informa:
- Gente. Eu preciso que vocês me sigam.
Ele saiu correndo até uma estrutura de madeira nos trilhos tampada com lonas que provavelmente foram colocadas por moradores de rua. Ele puxa uma das lonas enquanto volta para a brincadeira com Mary:
- Capitã, se você é tão sábia quanto linda, me diz o que é isso!
Atrás da lona, um magnífico trem estava escondido. Sua aparência não era das melhores, mas ainda sim gente, era um trem! Meus olhos brilham de alegria, e com uma explosão de energia, eu abraço o Simon, pulando de cima pra baixo.
- Achei! Achei!
Simon chato como sempre, me empurra pra longe. Logo vou correndo na frente deles observar o resto, procurando por uma entrada. O trem estava vandalizado, pelo menos ficou bonito com as várias cores das latas de spray.
Quando achei um local que poderia ser uma entrada, vi duas portas emperradas no lugar, foi quando o restante do grupo me alcançou e ajudou-me a abrir. Lembro que dentro desse vagão ar era abafado, e claustrofóbico. O brilho metálico das paredes se perdeu a muito tempo, agora restando apenas uma enferrujada carcaça de trem.
Simon não perdeu tempo e já começou a me zoar:
- É tudo o que você esperava?
Eu lembro de estar com um grande sorriso, e respondo animadamente:
- Ta brincando? Olha esse lugar! Imagina o tanto de coisa maneira que rolou aqui! Talvez um agente secreto infiltrado, ou um duelo de cowboy!
Nós adentramos uma porta a esquerda, que nos levaria até o vagão do maquinista. Porém, ao abrirmos, nos deparamos com uma sala escura. Graças a lona do lado de fora, o ambiente inteiro estava escuro.
Murphy me chama, jogando uma das lanternas que ele sempre carrega em sua mochila. Eu ligo e me deparo com a salas de laser do trem. Alguns bancos vermelhos escuros e mesas cinzas estavam lá, quase intocadas pelo tempo.
Ainda com certa dificuldade de enxergar, me questiono em voz alta:
- Será que não dá pra ligar a luz do trem, ou algo assim?
O som do suspiro do Simon ecoa pelo vagão inteiro, enquanto me corrige:
- Isso aqui ta abandonado a muitos anos, você realmente acha que vai ter energia?
Quando ele termina de falar, as luzes se acendem, um grande sorriso de bochecha a bochecha é formado enquanto encaro Simon. Escuto Mary e Murphy vindo de uma divisória em cima, como se fosse um segundo andar do trem. Murphy acena pra mim exclamando:
- O que vocês dois tão fazendo aí em baixo? A visão aqui de cima é bem melhor!
Simon ainda incrédulo, questiona:
- Como assim esse lugar tem energia ainda!?
Mary pula do andar superior na frente de Simon, o respondendo com aquele sotaque pirata, esfregando as mãos:
- Esse é o poder das Harpias piratas!
O Murphy pula do andar superior também, enquanto disse algo estranho:
- Vocês ouviram um zumbido aqui no trem? Estava até que bem alto lá em cima.
Simon responde a dúvida dele:
- Já é bem estranho o trem ter energia, então esse tal zumbido deve ser só ela passando pelo trem.
Com isso dito, prosseguimos para o próximo vagão, porém esse estava bem diferente do que vimos. As mesas e cadeiras haviam sido removidas, e pichações estavam visíveis pelas paredes.
Mary adiciona um ponto interessante:
- Como que essa área está vandalizada, sendo que a única entrada que vimos está normal?
Eu respondo, tentando soar inteligente:
- Aquela deve ser a área VIP.
Simon aponta pra uma janela quebrada:
- Ou talvez eles só escalaram mesmo.
Quando ele termina de dizer isso, nos assustamos com o som das engrenagens se soltando. E logo perdemos o equilíbrio quando o trem começou a se mover!! Olhamos através das janelas para confirmar nossa suspeita. Sim, ele estava se movendo e aumentando a velocidade a cade segundo que passava.
Dessa vez, a voz de Simon soava estressada:
- Vocês dois devem ter puxado alguma outra coisa!
Foi quando aquele som de zumbido que Murphy comentou, apareceu. Bem alto pela porta de entrada que viemos. Ao olhar, vimos o que parecia ser milhares de pequenos insetos de uma tonalidade acinzentada e outros com tons de vermelho. Era um enxame que se juntou, formando uma espiral deles, nos cercando.
Logo, nós Harpias fizemos o único próximo passo lógico. Fugir pelo lado oposto.
Os vagões eram estreitos e conforme corríamos, o enxame se aproximava cada vez mais. Eles também produziam um som metálico, como se fosse uma serra. Ao chegar no próximo, fechamos a porta olhando através do vidro. Murphy gritou:
- Você acha que essa porta vai mesmo impedir eles??
Do outro lado, esses insetos devoravam todas as mesas que passamos, toda a beleza que esse trem guardava, desaparecendo diante dos meus olhos. Sinto Mary me puxar enquanto voltamos a correr:
- Deixa pra apreciar a vista depois, a gente tem que sair daqui agora!
Simon exclama:
- Que boa ideia, capitã! Pular de um trem em movimento, isso sempre deu certo!
Murphy logo retruca:
- Se da certo em filmes, porque não daria aqui?
Após passar por alguns vagões, chegamos onde originalmente queríamos estar. A sala do maquinista. Mary e Murphy seguram a porta, impedindo que as criaturas entrem. Eu vejo o trem em uma velocidade altíssima, e me viro para Simon, colocando minhas mãos em seus ombros e o balançando:
- O que a gente vai fazer!? A gente vai morrer!!
Simon grita estressado:
- Me solta! Eu preciso pensar em algo!
Eu o vejo pegar seu celular do bolso, enquanto pesquisa alguma coisa na internet. Tudo o que eu podia fazer é andar de um lado para o outro suspirando alto. Finalmente, Simon fala alguma coisa:
- Tá, não precisa entrar em pânico, trens como esse tem um freio automático logo aqui na frente.
Ele diz, olhando para os controles danificados do trem. Naquela hora, tudo o que consegui fazer era entrar em pânico.
Simon de forma astuta me acalma levemente:
- Ainda tem o freio manual.
Eu com pressa na voz, o pergunto:
- Certo, e onde fica esse tal freio manual!?
Ele responde minhas dúvidas, mas também me deixa ainda mais nervoso:
- São dois freios. Um deles está aqui, já o outro está ali.
Sua mão aponta para a porta onde o enxame estava. Murphy olha para o freio manual que Simon mencionou e diz:
- Eu vi um igualzinho lá onde liguei a luz com a Mary. É esse!?
Simon apenas concorda com a cabeça. Olhando pro Murphy, eu pergunto:
- E agora!? O que a gente faz!?
Murphy tira o suor da testa, enquanto traz uma solução ousada:
- Mary e Simon ficam nesse vagão e puxam o freio, eu e o Max vamos voltar até lá e desligar esse trem logo.
Com uma voz aguda eu pergunto:
- Por que eu!? Não posso ficar aqui com o Simon?
O Murphy responde:
- Quando você finalmente ir para a academia, como eu sempre sugiro, você pode, mas por hora, você vem comigo.
Ele pega um cano enferrujado e me segura pelo braço, abrindo a porta e golpeando aquele enxame, criando uma brecha para passarmos. Mary rapidamente fecha a porta do maquinista e nós vemos o cano nas mãos de Murphy começar a se despedaçar, enquanto é consumido por essas criaturas, o som de serra ainda me dá calafrios.
Tudo passou como um flash, enquanto corríamos de volta até o primeiro vagão. Rapidamente subimos para o segundo andar onde a energia foi ligada. Mas foi quando outra coisa estranha começou a acontecer. Não sei explicar ainda, mas eu senti algo em uma gaveta próxima ao freio manual.
Murphy começou a gritar me pedindo para ajudar a puxar:
- O que você ta fazendo!? Vamos parar o trem logo!!
Dentro da gaveta, tinha um estranho lampião, com um cristal amarelo dentro. Ele parecia destoar do restante do trem. Sem pensar duas vezes, eu o peguei e coloquei na minha frente, na direção do enxame. Aquele cristal começou a brilhar intensamente, enquanto todos aqueles insetos voavam para dentro da lanterna.
Enquanto ocorria, eu conseguia ver várias das criaturas voando para dentro, quando a última entrou, eu rapidamente fechei a escotilha do lampião, os prendendo lá dentro. Murphy apenas me olhou assustado e moveu a cabeça pra me aproximar e parar o trem.
Usando toda minha força, junto a Murphy, o freio manual foi parado e o trem começa a fazer um barulho agudo e excruciante do barulho de metal das engrenagens nos trilhos. Finalmente, tínhamos parado o trem.
Murphy, se solta do freio, e respira fundo, enquanto diz:
- Deixa eu adivinhar, foi sua intuição de novo?
Eu respondo, ainda extasiado:
- É, foi quase como se eu soubesse que isso tinha alguma ligação com os insetos!
O restante do grupo se encontra comigo e com o Murphy do lado de fora. Mary exclama:
- Gente!? Cade os bichos!!?
Eu logo mostro o lampião, o cristal ainda brilha, mas é visível o enxame inteiro de insetos o circulando. Simon se aproxima, com um olhar curioso:
- Incrível! É outra daquelas relíquias?
Eu concordo com a cabeça, acrescentando:
- Você quer dizer, outro troféu pra nossa base!
Simon suspira, me corrigindo:
- Ainda não é uma base, é só uma casa velha.
Me lembro de sorrir. Mesmo se a gente quase tenha morrido, foi a melhor viagem de trem que eu poderia ter tido. Não só porque eu nunca andei de trem antes, mas porque quando eu finalmente consegui, os meus amigos estavam lá comigo.
Essa é com certeza uma história que eu quero recordar para sempre.
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