Contos da Harpia [Halloween] - Sob a Luz da Abóbora
Sob a Luz da Abóbora
A lua me observa,
iluminando o caminho com sua luz fantasmagórica pelas estradas e becos da
cidade. As folhas secas jogadas pelo quintal da minha casa são levadas por uma
brisa leve e repentina. Sinto um calafrio percorrer a minha espinha, poderia
sim ser o vento causando isso, mas eu estou vivo a tempo demais para saber
porque me sinto assim.
Essa noite, os maus
espíritos retornam e caminham perante aos vivos. Lembro que o cheiro das
abóboras em volta era doce e levemente terroso, elas eram colocadas à frente de
todas as casas da vizinhança. Sabem o motivo? Dentro delas é colocado uma vela,
e isso evita que os espíritos atormentem as famílias.
Minha mãe — Elizabeth, me contou sobre isso, também disse a importância de usar fantasias quando formos sair durante o Halloween. As roupas confundem os espíritos, os fazendo pensar que somos como eles.
—
Já acabou, Max? — Escuto Mary me interrompendo.
—
Ainda não! Vocês precisam saber todos os detalhes do Halloween para pegarmos a
maior quantidade de doces possível! Olha só para o Murphy, ele esteve prestando
atenção em tudo!
Murphy estava sentado no meu quintal, usando seus óculos escuros, com sua cabeça apoiada no ombro da Mary. Ele veio vestido de jardineiro, usando um macacão jeans com uma camisa verde por baixo, acompanhado de um regador de plástico. Ao lado dele, Mary estava usando um lindo vestido amarelo com vários girassóis falsos espalhados por ele. Em sua cabeça, tinha uma tiara com algumas pétalas levantadas para cima, com a tonalidade igualmente amarelada, completando sua fantasia de girassol.
Ela suavemente mexe o ombro, fazendo os óculos de Murphy caírem no chão, revelando que ele estava dormindo esse tempo todo. Me recompus, olhando para Simon, que com certeza achou tudo o que eu disse interessante. Sua expressão, porém, era aquela de tédio. Ele usava um roupão marrom escuro que cobria todo seu corpo, saindo de suas mangas tinha muito feno, em seu pescoço, uma corda em formato de nó, bem macabro. Completando sua aparência de espantalho, ele tinha uma máscara que também cobria seu rosto inteiro, apenas deixando furos nos olhos e um longo chapéu de couro desgastado.
—
Max, por que você está nos contando isso tudo? É conhecimento geral...
—
Eu só quero que todos saibam como se originou o Halloween, assim a gente pode
pegar muito mais doces!
Enquanto explicava, minha mãe abriu a porta da frente, e nos encontrou no quintal. Ela cumprimentou meus amigos e se agachou, colocando em meu rosto a máscara que estava fazendo para mim. Finalmente minha fantasia de bruxo esqueleto ficou pronta. Minhas vestimentas eram um longo sobretudo escurecido com tons de preto, por dentro contendo um roxo mais claro. Meu chapéu era o clássico pontudo de bruxa e a máscara era o detalhe mais especial e assustador. Era um pedaço de madeira branca pintada que foi talhado para parecer ossos, formando um crânio que lembra muito um demônio-dragão.
Minha mãe parecia surpresa com a fantasia de todos meus amigos, mas isso não tirava o quão assustador ela estava se vestindo. Seu vestido era branco e repleto de rasgos nas pontas, sua pele estava tão branca quanto a lua, por conta da maquiagem. Seu batom era um preto intenso, assim como as lágrimas desenhadas por baixo dos olhos. Quando ela se abaixou para colocar a máscara, pude ouvir sons de correntes, vindo de dentro do vestido. Murphy recém acordado, se assustou ao vê-la.
—
Fantasia irada de fantasma, senhorita Le Fay! — Mary exclamou.
—
Na verdade, é um Banshee, mas não deixa de ser um tipo de fantasma. — Ela
corrigiu, com um sorriso doce no rosto.
Simon
se levantou, e perguntou em um tom curioso
—
Você também está vestida para pegar doces?
—
Não, não... Eu não faço isso a muito tempo... Na verdade, fui chamada para uma
festa a fantasia. Acho que estou atrasada. Divirtam-se pegando doces, e ótimo
Halloween! — Ela diz, conforme vai em direção a saída do quintal da nossa casa.
Porém, se vira e olha para Simon.
—
Ah sim, e não deixa o Max causar confusão de mais hoje.
Simon
sorri e concorda com a cabeça. Ela então, parte nos deixando sozinhos para
começar a caçada aos doces. Cada um dos seus passos, fazia aquele barulho de
correntes.
—
Aí, Max! Que festa é essa que sua mãe está falando?
Olhei
para Murphy, de maneira pensativa. Realmente ele está certo sobre isso, ninguém
da vizinhança gostava muito da gente desde que nos mudamos para cá ano passado.
—
Minha mãe é cheia de surpresas, todo Halloween ela acha alguma coisa
interessante para fazer! — Digo, ainda curioso.
Mary,
cansada de toda a conversa, se levanta, junto a Murphy e exclama.
—
Vamos logo pegar doces! Já estou aqui a 5 minutos e nada de doce!!
—
Certeza que vou pegar mais doces que todos vocês — Murphy
se gaba, levantando seu pote de doces, ainda vazio em formato de abóbora.
Eu
me aproximo do Simon, e digo em voz alta e orgulhosa.
—
Acha mesmo que a fantasia fofinha de vocês dois vai ganhar contra o nosso
clássico assustador?
—
E você acha que não? Olha só para essas lindas flores! Vocês não têm nem
chance. — Mary exclama, batendo forte no peito.
—
No Halloween, apenas os espíritos malignos tem lugar, o restante irá ser
esquecido. — Simon concordou comigo.
—
É uma aposta? Daqui a duas horas, a gente se encontra na base, quem tiver mais
doces, vence. — Murphy me encarou, com brilho nos óculos. Eu estendo minha mão,
confiante, concordando com minha cabeça. Quando soltamos as mãos, rapidamente
nos separamos em duplas, eu e Simon partimos a direita da vizinhança, enquanto
Mary e Murphy foram para o lado oposto.
Nós estavamos com um pouco de dificuldade em como fazer isso, esse é o meu primeiro Halloween na vizinhança. Lembro que na primeira casa, estavamos discutindo um discurso medonho para pedir doces, porém a porta abriu durante a conversa. E rapidamente erguemos as nossas cestas, dizendo “Gostosuras ou Travessuras!”.
Vimos que a próxima casa, tinha uma decoração de espantalho, assim como a fantasia do Simon. Então dei um sorriso largo e trocamos olhares. Em seguida, toquei a campainha, e assim que a porta foi aberta, comecei meu discurso.
—
Oh, mortal! Hoje à noite, vim com o simples propósito de colher o máximo de
doces possível! Se não cooperar, você sofrerá a maldição do espantalho!
A
moça que abriu a porta, sorri, e coloca alguns doces baratos de segunda mão na
minha cesta em formato de caldeirão. Eu a olho de canto de rosto.
—
Vejo que não foi o bastante! Agora sofrerá a maldição do espantalho,
erga-se!
Em um estalar de dedos, o espantalho que estava no jardim, começa a se levantar, caminhando como se fosse sua primeira vez consciente, ele cai no chão, e se levanta com uma abóbora oca, se aproximando lentamente da casa. Seus passos eram parecidos como os de um morto-vivo. A moça na casa se assusta por um momento, enquanto o espantalho estende sua mão com a cesta de abóbora, e a voz de Simon é escutada.
—
Gostosuras ou travessuras!
Nesse
momento, eu jogo confete pra cima, enquanto grito.
—
Mágica!!
A
moça se surpreende, e começa a bater palmas, nos entregando doces de uma
qualidade muito melhor.
—
Eles não têm nem chance. Você arrasou com o papel de espantalho, deveria muito
entrar no teatro! — Eu disse, olhando para o Simon.
—
Eu não gosto de ser o centro das atenções.
—
É uma pena! Porque agora, é você quem vai bater na porta.
Ele
me olha, com um olhar cansado, e responde:
—
Eu acabei de falar que não gosto de ter a atenção toda para mim, vai você que
eu ajudo.
Concordo
e vou direto para a campainha da próxima casa, após tocar, um homem gentil de
meia idade abre a porta.
—
Gostosuras ou Trave- — Sou interrompido durante minha fala, pela mão de Simon,
que bloqueou minha boca. Vejo então, uma foice de plástico perto do meu
pescoço, enquanto escuto a voz de Simon, tentando fazer um grave rouco, falando
de maneira lenta.
—
Silêncio... Esta noite, os mortos caminham... e o preço para manter sua alma
entre os vivos é simples: todos seus melhores doces.
Simon
inclina sua cabeça, ainda com um olhar vazio e completa.
—
Agora, pague o tributo, ou você também irá cair no esquecimento.
Eu imediatamente sinto o Simon mexer minha cabeça de cima para baixo, concordando com a proposta que ele mesmo falou. O homem solta uma leve risada e nos entrega um monte de doces de alta qualidade. Nesse ritmo, nós com certeza ganharíamos do Murphy e da Mary, fomos em mais algumas casas, elaborando planos similares. O tempo passou voando, quando Simon tinha me avisado que as duas horas já haviam passado. Juntos, fomos até a velha casa abandonada da residência Kasper, também conhecida como Quartel General.
Originalmente, a gente precisou entrar de uma maneira diferente, mas hoje em dia, eu tenho a chave da casa. Ao abrirmos, é audível o ranger da porta, coisa que era para a Mary resolver a meses já. O ambiente inteiro está iluminado com velas que estão dentro de abóboras, se tem uma coisa que o Murphy sabe fazer é dar vida a tudo com suas decorações. Morcegos de plástico pendurados no teto, lençóis brancos em mobílias, lembrando vagamente fantasmas e é claro, teia de aranha, porém, não é falsa.
—
Aí estão vocês! Já estava achando que tinham esquecido da competição! — Murphy
exclamou, enquanto ele e Mary se sentavam no chão da sala de estar, quase
formando um círculo. Eu e Simon nos sentamos nos espaços restantes e antes
mesmo de revelar os doces, pergunto a eles como tinha sido a caçada.
—
Ainda bem que perguntou! — Mary entusiasmada, começa a
gesticular com as mãos enquanto conta a história.
Acho melhor a própria Mary contar os detalhes. Vejo vocês depois.
Conforme
escolhíamos a melhor casa para pegar doces, Murphy discutia ideias de como
poderiam usar as fantasias para pegar uma grande quantidade de doces. Mesmo
discutindo sobre os planos, eu andava mais na frente, animada demais com as
possibilidades.
—
Você deveria andar um pouco mais devagar. — Murphy comenta, com um tom leve de
humor. — Girassóis não costumam correr.
—
E os jardineiros não deveriam deixa-los sozinhos! — Eu paro no meio da
caminhada, olhando para Murphy enquanto sorrio e faço uma careta para ele. Ambos,
agora parados, notam a casa perfeita para pegar doces. Tinha uma linda varanda
cheia de vasos, com uma grande diversidade de flores com cores diferentes.
—
É essa! Confia em mim, aqueles outros dois não tem a menor chance. — Murphy
comenta, indo em direção a porta da frente. Eu o acompanhei.
—
Não vai ser aquele plano que envolvia você tropeçar no regador, vai?
—
Estratégia de distração.
Agora
próximos da porta, Murphy estende a mão, tocando a campainha, e quando a porta
se abriu, se revelou uma senhora meiga que carregava um pote de doces.
Rapidamente o Murphy ajeitou seus óculos escuros e começou um discurso:
—
Boa noite madame Jones! Sou-me o jardineiro chefe das colheitas de Marble
Valley. Venho inspecionar seu lindo jardim em busca de plantas amaldiçoadas!
— Fico chocada como o Murphy consegue lembrar o nome de tanta gente.
Segurei
a risada, cobrindo minha boca com a cesta de abóbora.
—
Como exatamente que você faz isso, Jardineiro Chefe?
—
Com isso! — Ele estende sua mão, com seu regador de plástico. — Se a
planta reagir, é sinal de feitiço!
A
senhora, que antes estava com um sorriso no rosto, agora começa a rir junto a
mim, e logo faz uma pergunta ao garoto.
—
E o que acontece se for amaldiçoada?
Finalmente
entrei na brincadeira, e respondi tentando engrossar minha voz:
—
Ela cria vida e se transforma em um monstro, igual a mim, grrr!!
A
senhora ainda rindo, aperta de leve nossas bochechas.
—
Acho que vou precisar pagar o preço pelos seus serviços! — Ela disse, colocando
um punhado de doces nas nossas cestas.
Agradecemos
e saíamos sorrindo daquela casa, indo em direção a próxima. Troquei olhares com
Murphy e dei uma risadinha.
—
Você é mesmo bom nisso. — Eu disse, em um tom sincero. — Consegue fazer
qualquer um sorrir.
—
Acho que foi sorte.
—
Sorte nada. — Empurrei o ombro dele de leve. — Você sempre me faz sorrir.
Logo
eu havia avistado a próxima casa que iriamos tentar conseguir doces, a
residência tinha um portão torto, e um cachorro dormindo na varanda. O jardim,
apesar de precisar ser cortado, era repleto de flores entre as folhas.
—
Será que é uma boa ideia mesmo? Aquele cachorro pode avançar na gente. — Murphy
avistando um potencial perigo, questionou minha decisão, mas eu simplesmente
abri o portão, e entrei no jardim. O cachorro levantou a cabeça e começou a
abanar o rabo ao me ver.
—
Ta vendo? Todo mundo gosta de flores, agora vem!
Murphy
me seguiu, e dessa vez, eu quem iria efetuar o plano. Ao tocar a campainha, um
senhor grisalho abriu a porta, os encarando de maneira curiosa, como se não
recebesse visitas.
—
Boa noite! Estamos colhendo doces para espalhar alegria pela cidade. Podemos
plantar um pouco de sorrisos por aqui também?
O
homem, tirando um palito da boca, pergunta:
—
Plantar sorrisos?
—
É! — Eu disse, confiante. — A cada doce que o senhor der, eu prometo plantar
uma flor amanhã no meu quintal em seu nome!
De
repente, um sorriso se formou em seu rosto, algo que Murphy menciona ter ficado
impressionado, esse sujeito sempre foi mais reservado e não demonstrava
qualquer emoção, acho que realmente fiz o dia dele.
O
homem retornou para dentro da casa, trazendo consigo uma caixa de bombons, e
entregando ela a nós dois.
—
Muito obrigado, minha jovem. Eu não tenho muitos doces, mas espero que esses
possam ser suficientes.
O
cachorro havia se levantado também, e ficou próximo a Murphy, que logo começou
a fazer carinho em sua cabeça.
—
Acho que até ele ficou feliz.
Max
aqui! Antes de voltar a contar história de Halloween, agora faz sentido porque
a fantasia dos dois combina tanto! Voltando ao conto...
Após
isso, contamos as nossas histórias e viramos os doces em duas pilhas separadas,
vendo quem conseguiu mais. Logo quando a contagem havia começado, um som seco
ecoa da porta da frente. TOC. TOC. TOC. Nós nos entreolhamos em
silêncio. Seria alguém pedindo doces também?
Sem
fazer barulho, eu me levanto e caminho em direção as batidas, a madeira abaixo
dos meus pés range a cada passo que faço, e quando finalmente fico
frente-a-frente com a porta, giro a maçaneta, e vejo três figuras apreensivas:
Ethan, Makoto e Tobias. Eles são da minha escola, quando me mudei para a
cidade, eles eram bem chatos comigo, mas com o passar do tempo acabamos nos
tornando próximos. Eles não usavam fantasias, Ethan como sempre usava um boné
vermelho para frente, seu cabelo loiro estava sujo de barro. Ele lembra muito
um jogador de futebol americano, por causa do porte dele. Nem parece que temos
a mesma idade, por causa da sua altura. Ele usa uma jaqueta de couro falso e
suas roupas costumam ser rasgadas.
A
Makoto tem um cabelo curto bagunçado na tonalidade preta, e seu rosto sempre
contem um curativo ou dois. Em uma das suas orelhas, ela tem dois brincos de
argola pequenos, e suas roupas são mais largadas, porém, utilizava uma jaqueta cinza
jeans. E por último, temos o Tobias, que é o mais alto e curte andar de skate. O
cabelo dele é sempre bem arrumado, e suas roupas são camisas sempre diferentes
com estampas chamativas. Porém, suas roupas estavam sujas de barro e suas
respirações eram pesadas. Ah sim, e tinha cinco pequenas chamas azuis flutuando
em cima da cabeça deles, acho que eu deveria ter começado com isso...
—
Max... — Ethan fala primeiro, sua voz, porém, está trêmula
—
A gente precisa falar com o Murphy! É importante! — Makoto o corta, antes dele
conseguir falar.
Eu
sinto Murphy se aproximando, nem tinha notado o quão perto ele realmente
estava, abro caminho para ele, notando que estava segurando o seu taco de
baseball que mantemos aqui para emergências. Ele conversa com Ethan:
—
Falar comigo? O que aconteceu?
Ethan
troca olhares rápidos com os outros dois antes de responder:
—
A gente... a gente tava em um bosque próximo, destruindo algumas abóboras
velhas, e...
—
...e uma delas levantou. — Makoto o interrompe, sua voz quase falha.
O
ambiente inteiro fica em silêncio, apenas os sons de insetos e do próprio vento
são escutados. Tobias completa:
—
Era um monstro. De abóbora. Ele tinha um bastão feito de raízes enorme, e nos
ameaçou. Disse que pelas abóboras destruídas, teríamos que fazer algo para ele.
—
E não podíamos pedir ajuda para nenhum adulto. Vocês sempre dizem que se alguma
coisa desse tipo acontecer, era para contatar as Harpias. — Ethan adiciona no
final da frase.
—
Espera, o que exatamente esse monstro abóbora quer que vocês façam? —
Normalmente, criaturas sobrenaturais assim não se expõe dessa maneira, durante
um ano inteiro vimos cada tipo de coisa diferente, então uma criatura com um
bastão e uma cabeça de abóbora não parecia fora de questão.
—
Ele disse que precisávamos apagar as velas de cinco abóboras espalhadas pela
cidade. Disse que se não fizermos isso antes da meia-noite, ele viria atrás da
gente.
—
Ele quer ferir as pessoas da cidade. — Simon se levantou e caminhou até a
porta, agora sem sua máscara de espantalho. — As velas nas abóboras servem como
proteção dos espíritos malignos. Seria esperto apagar elas, mas só para ganhar
tempo até pensarmos em um plano definitivo de parar essa criatura. Na próxima,
utilizem fantasias para se esconderem dos espíritos.
É
muito legal saber que pelo menos o Simon estava prestando atenção na minha
história.
—
E como saber quais abóboras temos que apagar? Tem centenas delas espalhadas
pela cidade! — Mary se aproximou, apontando um detalhe importante.
—
É para isso que essas chamas azuis servem... Elas devem nos guiar até as
abóboras. — Makoto esclareceu.
Mary
concorda com a cabeça, e parte para o porão da casa. Eu acalmei o grupo do
Ethan que estava agitado.
—
Se esse monstro realmente existe, e quer ferir pessoas... Então a gente não
pode deixar isso acontecer.
—
Ta decidido então. A gente vai ajudar vocês. Se são cinco velas, vamos nos
separar em grupos e apaga-las antes da meia-noite. — Murphy fez um rápido
planejamento, foi a decisão certa, até porque se tem um monstro abóbora a
solta, ficar sozinho é a última coisa que precisamos.
—
Faltam só duas horas até meia-noite. — Simon olhava em seu celular.
Vejo
Mary voltar da sua ida ao porão, carregando nossos equipamentos para situações
como essa. Ela entrega a mim, meu velho estilingue, ao Simon, entrega aquela
relíquia que decidimos chamar de “Óculos da Ilusão”, ela foi a primeira que
encontramos. Eu não gosto da ideia de usar as relíquias, mas acho que o Simon não
compartilha do mesmo pensamento que eu. E por último, ela coloca uma soqueira
de aço em sua própria mão. O Murphy sempre usa esse bastão que está segurando.
Me
aproximo do Ethan, e fico encarando uma das chamas azuis que flutuam sobre sua
cabeça.
— Consegue se abaixar um pouco?
—
Ah! Você quer ver sobre a chama? — Ethan pergunta, enquanto começa a ficar de
joelhos.
Eu
estendo minha mão e fecho meus olhos, entrando em um estado de concentração. Eu
ainda estou em treinamento sobre o mundo espiritual, mas é o meu dever como
intermediário do espiritual e do físico. Pelo menos foi o que minha mãe disse.
Consigo ver que as chamas azuis, na verdade não são hostis, é quase como um
coração, seu brilho parecia dançar. Ao abrir meus olhos, encarei Ethan.
—
Está vivo.
—
Uh?
Com
a mão em direção as chamas, elas flutuam sobre meu braço, me rodeando.
—
Já que vocês são guias dos meus colegas aqui, se importariam de nos guiar
também? Quanto mais ajuda melhor! — Falei com as chamas, o grupo do Ethan me
olhou de forma indignada.
—
Eu sabia que você era estranho, consegue até superar os boatos que espalhamos
no seu primeiro dia. — Makoto acrescenta.
A
chama começa a girar em movimentos circulares, confirmando minha sugestão.
—
Vamos fazer o seguinte então, eu e as Harpias vamos seguir duas das chamas,
enquanto vocês vão com outras duas, apaguem as velas e nos encontramos na praça
central da cidade, para irmos até a última juntos.
—
Ei. Acha que consegue lidar com o sobrenatural dessa vez? — Levanto minha
cabeça até o Ethan, e o pergunto em um tom sarcástico.
—
Se o plano é apagar velas e destruir abóboras, pode contar comigo.
—
Aposto que apagamos as velas antes de vocês.
Com
um sorriso de canto de rosto, Ethan e eu apertamos as mãos confirmando nossa
aposta. Com isso dito, uma das chamas azuis foi em direção a praça central, nos
esperar. Enquanto outras duas guiavam Ethan e seus amigos para um canto da
cidade, as nossas levaram a gente pra uma área bem mais afastada, longe da
minha casa.
O
fogo nos guia até o ferro velho da cidade, a gente costuma visitar muito esse
lugar, pegamos vários recursos para nossos equipamentos e base. Também é muito divertido
escalar as pilhas de sucata. Achei estranho de inicio o ferro velho estar
decorado com várias e várias abóboras esculpidas. As chamas partem e ficam flutuando
sobre uma abóbora específica, o nosso objetivo principal de vir até o ferro
velho.
Nos
aproximamos, sentindo o vento frio do ar cortar sobre nossa pele, assim como lá
no quartel general, o silêncio aqui é esmagador. Aquelas abóboras não deveriam
estar aqui, ninguém decora o ferro velho. Elas causavam calafrios sempre que as
olhava.
E
para meu terror, eu estava certo. Cada uma daquelas abóboras começa a
desenterrar patas aracnídeas como se fossem raízes saindo da terra. O som era
de abóboras sendo esmagadas, conforme suas pernas de aranha se revelam. Até
hoje me lembro perfeitamente do som.
—
Gente? — Mary exclama em voz alta, ao notar essas abóboras-aranhas.
—
Ei Max, apaga a lanterna da abóbora, e depois nos ajuda aqui! — Murphy me
direciona, enquanto segura seu taco de baseball e parte em direção as criaturas.
Eu levanto meu polegar, assentindo.
Pego
alguns pequenos pedaços de metal, e parto em direção a abóbora que preciso
apagar, algumas daquelas aranhas pulam em minha direção, tentando me morder,
mas eu sou muito mais ágil que elas, e desvio com facilidade. Com a distância
perfeita tomada, eu me posiciono com meu estilingue e disparo o metal nesses
monstros. As sucatas fazem algumas rachaduras ao entrar em contato com as
abóboras, elas caem no chão desnorteadas, mas ainda sim se levantam e voltam a
tentar me atacar.
Ainda
cheio de adrenalina, e abóboras tentando me alcançar, eu estendo minha mão na
vela com a intenção de apaga-la. Porém, assim que a toco, acabo me queimando.
Isso sempre funciona nos filmes, então achei que ia dar certo.
Tentando
parar a dor da queimadura na minha mão, eu pressiono com força em um pedaço
grande de metal jogado no chão, ele estava bem gelado por conta da noite, não
ajudou tanto quanto eu esperava, mas foi o suficiente. Me viro com o estilingue
para o restante das abóboras e miro com precisão na direção de suas bocas. Ao
soltar, imagino a cena com o metal indo em câmera lenta direto para o centro da
abóbora, e quando fez contato, ela explodiu de dentro para fora, jogando sementes
e restos para todos os lados. Foi bem épico, vocês não estavam lá pra ver.
Eu
pego os restos da abóbora que explodiu, e jogo em cima da vela, apagando com sucesso.
A chama azul que flutuava a cima, lentamente começa a desaparecer. Acho que meu
trabalho aqui foi concluído. Ao me virar aos meus amigos, vejo várias daquelas
aranhas pularem em direção ao Murphy, que respondeu batendo o taco nelas as
fazendo explodir no ar. Mary se movia de maneira leve, desviando das abóboras,
e disparava socos potentes, as quebrando com uma certa dificuldade. Simon por
sua vez, não parecia estar usando a relíquia ainda, ele pegou um cano velho e deu
cobertura ao Murphy.
Pulo
pelos escombros de metal, e disparo entre as abóboras restantes, enquanto grito
para meus colegas que a missão estava cumprida. Juntos, nós terminamos de
destruir essas abóboras.
—
Por que esse monstro nos mandaria apagar as velas e enviaria criaturas para nos
impedir? — Mary perguntou, ainda recuperando o folego, e tirando os restos de
abóbora esmagadas da roupa.
—
Não sei muito bem sobre porque ele faria isso, pensei que ao apagar as velas, estaríamos
auxiliando o monstro..., mas talvez ele veja isso como um tipo de jogo? — Simon
bolou uma teoria, até que faz sentido. As criaturas do mundo espiritual
costumam ter métodos diferentes de agir.
—
Vamos deixar as teorias para mais tarde, precisamos ir apagar a próxima o mais
rápido possível. — Murphy completa, e com isso, retorno minha visão para nosso
pequeno guia flamejante, enquanto nos leva até a próxima localização.
Ela
não era tão afastada quanto o ferro velho, era em uma das casas da vizinhança,
lembro que a Mary havia dito que essa era uma das casas que havia dado doces
pra ela e Murphy. Nosso objetivo não era somente apagar as velas, como também
proteger a casa do nosso bem feitor. Mary notou a quantidade enorme de flores
que estava espalhada pelo quintal, coisa que ela tem quase certeza que não
estava assim antes. O fogo azul vai até em cima da casa, e começa a flutuar por
lá, revelando que a abóbora estava no telhado.
—
Deixa essa comigo — Mary disse, enquanto tirava a soqueira e guardava no bolso.
No
momento em que ela se aproxima da casa, para começar a escalar, as flores do
chão, começam a sair da terra, revelando novamente aquelas aranhas-aboboras
medonhas. Só que dessa vez, cada uma tinha uma flor de cor diferente em seu
topo.
—
A gente te da cobertura! — Murphy solta seu bastão e pega um ancinho usado para
jardinagem que estava jogado no jardim. E antes mesmo de uma das abóboras sair
da terra, ele destrói-as no chão. Mary não perde tempo e parte para casa,
pulando sobre as abóboras enquanto as esmaga.
Vejo
ela subir pela janela, usando o telhado como suporte para rapidamente escalar
ao topo da casa, ainda me surpreendo como a Mary consegue fazer coisas assim
parecer tão fácil de serem feitas.
—
Max, pensa rápido!
Murphy
com o ancinho, puxa as abóboras as arremessando na minha direção, eu pego o
taco jogado no chão, e começo a rebater cada uma delas, nunca me senti tão
forte assim, cada uma delas explodia quando fazia contato com o taco. Esse é o
jeito americano de resolver as coisas então? Agora estou completamente sujo de
abóbora.
Elas
nos cercam, nos deixando em uma posição de desvantagem. Porém, algo surpreendente
acontece, elas se viram uma para as outras, e começam a se atacar, se
destruindo no processo. Olhamos para Simon, que estava usando os óculos para
confundir as criaturas.
—
Que sua própria animosidade seja sua queda. — Simon recita o que parece ser o
verso de algum dos livros dele. Que orgulho, já até consigo ver ele no teatro.
Olho
para Mary no topo do telhado, e a vejo se aproximar da abóbora, colocando uma
das mãos dentro dela e assoprando, para apagar a vela. Olho para minha mão
queimada e penso: “porque eu não tentei isso antes?”
Mas
algo horrível acontece, a abóbora cria vida e engole a mão de Mary, ela
rapidamente se levanta, a puxando junto, ela tenta se separar da abóbora, mas
está grudada lá. Nesse mesmo momento, várias outras aranhas pulam no telhado,
tentando impedir Mary. Eu puxo meu estilingue e a auxilio.
Ela
olha para sua própria mão abóbora agora, e sorri, enquanto parte pra cima das
aranhas, usando-a como um martelo de destruição da morte. Não consigo imaginar
ninguém além da Mary para utilizar uma fruta como arma. A cada pancada que ela
dava, a abóbora em sua mão rachava, até que ela também explode, e a chama azul
se desfaz. Novamente, mais um trabalho concluído. Mary se joga do telhado,
caindo de pé, numa pose dramática.
—
Nota dez para a queda! — Eu digo, enquanto nós quatro começamos a rir, isso,
porém, não durou, já que escutamos o morador da casa gritar:
—
Que barulho todo é esse aí fora!? — Nós aproveitamos e saímos correndo, antes
que minha reputação no bairro se torne pior. Murphy rapidamente larga o ancinho
e pega seu bastão de baseball de volta.
Correndo
até a praça central, Murphy olhou para Simon e perguntou em voz alta.
—
Falta quanto tempo até meia noite?
—
Menos de uma hora.
Ao
chegarmos na praça, noto as decorações de Halloween espalhadas, pelo menos essas
são reais mesmo, já estou cansado de esmagar abóboras por um dia inteiro. A
fonte central está sempre ligada, e as luzes em volta tornam o ambiente um
lugar agradável de se ficar a noite. O que eu mais achei engraçado foi uma
abóbora na cabeça da estátua.
Notamos
o grupo do Ethan nos esperando lá, além da sujeira comum de barro, eles também
estavam repletos de restos de abóbora, imagino que tiveram que lutar contra
várias dessas aranhas. Fiquei aliviado de ver que todos estavam bem, também
notei que as chamas azuis não estavam com eles, o que significa que fizeram um
bom trabalho.
—
Então sua força bruta se iguala a nossa experiência? — Perguntei a Ethan, com
um sorriso no rosto.
—
Não sabemos de nada dessas coisas paranormais, mas se o assunto é quebrar
abóboras, nós somos as pessoas certas.
—
Então, vamos unir forças e amassar essa última abóbora! — Mary levanta seu
punho com a soqueira em comemoração, todo mundo levanta suas armas e punhos e
grita.
Makoto
se aproxima de Mary, com um olhar espantado.
—
Pra uma garota vestida de flor, você até que tem garra!
Ela
sorri e dá um soco de leve no ombro da Makoto, acho que ela não esperava que
Mary fosse tão forte assim. Juntos, nos aliamos para o objetivo final. A última
abóbora.
—
Simon, conseguiu pensar em um plano para esse monstro abóbora? — Murphy
perguntou, seguindo o fogo azul que nos levaria até a última vela.
—
Pensei em alguns, mas todos envolvem muita destruição do ambiente, e eu quero
evitar isso por hora.
Ao
chegarmos no local onde a última abóbora está, notamos o ambiente ao redor. Era
dentro de um bosque, um grande palco estava posto e preparado, várias cadeiras
para quem atendeu o show estavam posicionadas e é claro, muitas latas no chão.
Esse palco é de uma banda que a gente gosta muito, chamada “Slashers”. Fomos a
esse show alguns dias atrás, acho que não limparam tudo ainda. O fogo vai em
direção a este palco, então se ilumina sobre a abóbora central, nosso objetivo.
Em volta dela, haviam várias outras abóboras, principalmente na frente do
palco, servindo como uma proteção, eu imagino.
— Acho que esse monstro decidiu levar o jogo a
sério, trouxe um pequeno exército para nos enfrentar — Digo, tirando meu
estilingue e alguns pedaços de metal do bolso.
—
Vamos terminar com isso logo, e acabar com essa noite. — Ethan se aproxima do palco,
chutando qualquer abóbora no seu caminho. Nós o seguimos.
Conforme
nos aproximamos, é claro, algumas das abóboras se revelaram ser aquelas horríveis
aranhas, que se aproximavam e eram lançadas em nossa direção, em uma tentativa
de ataque. Em meio aos desvios, o que mais consigo lembrar dessa batalha, é o
som daquelas várias patas aracnídeas batendo contra o chão e as folhas, se
aproximando da gente.
Simon
dessa vez decidiu ser aquele quem apagaria a chama da vela, pois notou que
estavamos muito ocupados com as aranhas. Murphy o seguiu para dar cobertura, ao
subirem no palco fiquei atirando com o estilingue, não estava sendo muito
funcional, eram muitas criaturas, e para meu azar, minha munição logo acabou. Vejo
um daqueles monstros vindo em minha direção, se preparando para pular em mim, foi
quando escutei Ethan:
—
Ei, pega! — Vejo uma daquelas cadeiras dobráveis vindo na minha direção, em um movimento
ágil, a seguro no ar, e me viro contra as aranhas, e as esmago em pleno pulo.
Com
menos criaturas próximas a mim, me viro para notar Makoto e Mary juntas, elas
lutando como incríveis boxeadoras. Enquanto as aranhas vêm, Makoto segura elas
pelas pernas, e arremessa em direção a uma viga de metal, e para concluir, Mary
se joga de cima de uma cadeira em direção a elas, as destruindo por completo. O
Tobias, porém, estava escondido deitado debaixo de várias cadeiras, com suas
mãos cobrindo seu rosto.
—
Eu odeio muito essas aranhas!
Dentre
todas as pessoas do grupo, acho que ele é a última que eu esperava fazer algo desse
tipo.
E
por último, Simon e Murphy combinavam estratégia com combate bruto. Vi Simon
parado no palco, os símbolos ao redor dos óculos brilhavam, enquanto via várias
aranhas se jogarem contra vigas de metal, se prendendo. Murphy as finalizava
com seu bastão de baseball.
Nisso,
Simon se aproxima da última abóbora, e notando o erro da Mary na última vez,
assopra a vela sem utilizar suas mãos. Porém, a vela não se apagou. Algo
pavoroso aconteceu. Saindo do centro do palco, uma criatura grande foi
revelada, seu corpo era repleto de raízes escuras, e tinha cerca de uns dois
metros de altura. O rosto era a própria abóbora que precisávamos apagar. Finalmente
estavamos frente-a-frente com quem orquestrou essa caçada. O Abóbora.
Entendemos o motivo do seu jogo, ele não queria somente enfraquecer a defesa da
cidade, mas sim nos cansar.
Murphy
e Simon pensam rápido e referem vários golpes contra as pernas dessa criatura, não
parecia estar fazendo efeito algum. As raízes eram resistentes até mesmo aquele
cano de ferro que Simon tinha. Durante os ataques, percebi aquelas aranhas se
aproximarem dos dois, e pularem em direção a eles, mordendo uma mão de cada e se
fundindo com o chão, os deixando presos perante ao Abóbora.
O
Abóbora arranca do seu corpo, uma das suas longas raízes espinhosas. Esse era o
bastão que Ethan havia mencionado. E com um rápido movimento, a criatura disfere
um ataque certeiro contra meus amigos. A última coisa que lembro de ver foi
eles colocando o braço na frente para se proteger, após isso, eu acabei fechando
os olhos por instinto, e só escutei o impacto seco, seguido do grito de dor deles.
Mary gritou o nome do Murphy e partiu em direção a esse monstro. Foi como se o
momento inteiro estivesse parado no tempo, a gente costuma enfrentar criaturas
o tempo todo, mas dificilmente alguém se machuca dessa maneira nas aventuras.
Voltando
para consciência, noto Tobias em um surto de coragem, correndo em direção
aquele monstro, por causa da sua altura, ele chega bem mais rápido que Mary, e
usando as cortinas do palco, ele distrai a criatura, enquanto destrói as
abóboras que prendiam Simon e Murphy. Os dois correm daquela situação. Eu e
Mary nem se importamos com o resto, e logo abraçamos nossos amigos e
agradecemos por estarem vivos. Ao olhar para o palco novamente, vejo o restante
do grupo de Ethan, atraindo a atenção do Abóbora, enquanto eles o guiam para o
meio da floresta.
O
campo de batalha agora estava silencioso.
—
Ei, você está bem? Ta sentindo muita dor?? — A voz de Mary era de pura
preocupação com Murphy.
—
Não consigo ver nada... Eu morri? — A voz dele era dramática, como se estivesse
morrendo. Eu tiro os óculos escuros do rosto dele, estavam trincados.
—
Consegue ver melhor agora? — Pergunto, observando a cena. Ele volta o olhar até
Mary.
—
Acho que morri mesmo, pois a única coisa que vejo é um anjo na minha frente. —
Compartilho um olhar de desgosto com Simon, mas apenas vejo ele de cabeça
baixa.
—
Besta! — Mary sorri, tirando algumas lágrimas do rosto, enquanto passa a mão no
cabelo dele.
Me
viro ao Simon, procurando uma confirmação.
—
Vamos usar um daqueles planos destrutivos que você havia mencionado?
Ele
concorda com a cabeça, e se levanta, com sua mão ainda segurando seu braço.
—
Eu quero a cabeça dele. — Simon diz, com uma voz sombria.
Nós
nos cercamos em volta dele, conforme escutávamos o plano que Simon havia bolado.
Eu até descreveria o que ele planejou, mas acho melhor ver na prática mesmo.
Tudo
começou conosco indo até uma ponte de madeira mais afastada da cidade, que
passa por um riacho razoavelmente grande. Discutimos o plano mais uma vez, e
todos ficaram em posição. Eu enviei uma mensagem de texto para o Ethan, com minha
localização, e o disse para atrair o Abóbora até aqui. Murphy o estava
esperando no meio do caminho. O chão tremia a cada passo que aquele monstro
dava ao se aproximar, o brilho intenso da vela dentro da sua cabeça iluminava o
caminho por si só.
Enquanto
ele se aproximava, tudo o que eu queria era acabar com isso logo, para podermos
ver o amanhecer do próximo dia, com todos juntos. Ethan e o restante do grupo
dele, estavam visivelmente exaustos. Murphy o guia até a ponte, e logo
atravessam, deixando o Abóbora do outro lado, esperamos o momento certo para
ele atravessar.
Quando
ele subiu na ponte, foi o momento perfeito para o plano de verdade começar.
Vejo Mary se arremessar de cima de uma árvore em direção a cabeça do Abóbora, o
acertando com um chute preciso, e caindo no chão de maneira elegante. A
criatura ficou desnorteada e Murphy chegou para a ajuda-la, empurrado a
criatura de surpresa, para cair da ponte.
Todos
comemoramos, pois havíamos conseguido derrotar a criatura, pelo menos foi o que
pensamos na hora. O plano era apagar a vela dele com a ajuda do riacho, mas
quando olhei em direção dela, vi a água borbulhando, e a criatura começando a
se levantar para sair de sua armadilha. Sua vela brilhava intensamente ainda,
mesmo na água.
Em
um momento de puro instinto, não avisei meus amigos, mas tomei uma atitude.
Pulei no riacho, e mergulhei até onde a criatura estava. As raízes dela se
prendiam no meu corpo, enquanto sentia me puxar para o fundo, tentando me afogar.
Mas isso me deixava mais perto do meu objetivo.
Eu
acho que eu entendi porque não assoprei a vela antes, quando tive a chance. As
chamas incandescentes dessa criatura eram belas, quase como se estivesse me atraindo,
eu senti que poderia apagar, com minhas próprias mãos. Eu quero essa chama para
mim.
Em
um apertar de mãos, vejo as chamas se extinguirem nas minhas palmas. A luz dos
olhos dessa criatura desaparece. Nós vencemos.
Sinto
Mary me puxar para fora do riacho, as raízes que me prendiam, se quebram facilmente,
até mesmo debaixo d’água elas pareciam estar secas. Ela me olha de maneira
preocupada e pergunta:
—
Por que você fez isso!?
—
A chama dele não havia se apagado. Eu precisei dar um mergulho de fé para ter
certeza que ganharíamos.
O
restante do grupo volta o olhar para a criatura, vendo sua abóbora agora a
apagada entre a água. Mais calmos que o terror havia acabado, Murphy se deita
no chão, ainda segurando seu braço.
—
Então esse é o mergulho da vitória!
Todos
nós, incluindo nossos novos companheiros, riamos da situação e do comentário do
Murphy, porém, nossa diversão foi cortada pelo familiar som de correntes. Ao
olharmos para a direção que viemos, notamos minha mãe.
Ela
continuava vestida com aquela fantasia de Banshee. Mas estava suja com restos
de abóbora também, imagino que ela tenha encontrado mais daquelas aranhas pela
cidade.
—
Max, o que aconteceu!? Vocês estão bem?? — Sua voz era carregada de
preocupação, mas ao notar a criatura abaixo do rio, sua expressão logo se
transformou em orgulho.
Ela
se vira para nós, com um sorriso sereno:
—
Noite difícil pelo visto.
—
Noite dificil. — Comento, enquanto tiro alguns pedaços de abóbora no vestido
dela.
—
Não esperava que algo tão perigoso assim viesse no Halloween. Vocês fizeram
bem! Mas não podemos ignorar os machucados que sofreram... — Ela comenta
observando alguns arranhões em praticamente todo mundo, porém seu olhar estava
principalmente no Simon e Murphy.
—
Vou chamar uma ambulância, isso parece sério.
Murphy
se levanta, segurando seu braço, e responde tentando soar como adulto.
—
E eu lá tenho cara de quem consegue pagar uma ambulância? Vamos andando mesmo.
—
Tudo bem, podemos ir de carro.
—
Você tem um carro!? Desde quando? — Eu pergunto, curioso.
—
Eu peguei emprestado. — Ela sorri de canto de rosto, enquanto coloca o
indicador na frente dos lábios e pisca o olho para mim. Até minha mãe tem seus
segredos.
Nós
rimos e partimos em direção ao hospital. A situação dos dois não era tão grave
assim, se o Abóbora tivesse batido só um pouquinho mais forte, teria quebrado o
braço dos dois. Mas apenas trincou, eles tiveram que usar gesso por um tempo,
mas isso fica pra outra história.
Esse
foi o primeiro Halloween das Harpias. E ainda teve a participação do Ethan e
seus amigos, que ficavam me incomodando no passado. Vendo agora toda essa
situação, mesmo que tenha sido aterrorizante de verdade, eu não consigo evitar
de me sentir orgulhoso perante a todo nosso crescimento. Nós sozinhos
conseguimos vencer uma ameaça de verdade! Esse é um ótimo ano para as Harpias!
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