Contos da Harpia Volume 1 - Memórias do Duploversário


Escrito por:
River.S e Ray.B

Memórias do Duploversário 

Feliz aniversário Max! Espero que esse diário que a Mary te deu tenha caído em segurança em suas mãos. E que o marcador de páginas do Simon tenha levado até esse conto que eu com toda minha graça escrevo para você. Olha só, eu escrevendo uma história, o que um amigo irado como eu não faço para você? De nada.

Então, meu presente para você, é uma história que te ajudará a se dar muito bem com o Simon, eu percebi que vocês dois vivem batendo a cabeça durante nossas missões, então esse conto é para mostrar que esse cara por fora pode ser meio casca grossa, mas tem um coração bondoso e fofinho por dentro. Então, lá vai a história:

E tudo começou, advinha? No dia mais ‘fantástico’ de todos, como você diria. No meu aniversário! Eu ainda havia acabado de me mudar para Marble Valley, assim como você, então estava incerto de como seria esse dia na escola. Mas, depois de descer as escadas e notar minha mãe e meu pai com um bolo enorme rodeados de presentes somente para mim, eu tive certeza que o dia seria incrível.

Eu lembro até hoje, o bolo era de chocolate recheado com morangos e cobertura de baunilha, era meio que um bolo grande embaixo, e um menor encima. É claro, tudo decorado com meu personagem favorito do jogo Briminal Fighters 3.

Minha mãe, que é uma mulher extremamente alegre e animada, já estava pulando de alegria, segurando um copo de refrigerante, me deu um grande abraço de aniversário em seguida o seu presente, aquilo que eu queria tanto. Uma bicicleta azul escura com vários adesivos já colados. Sim, é a mesma que eu uso até hoje, está bem gasta, não?

Já o meu pai, um cara extremamente forte e musculoso com um belo bigode, até faltou o trabalho naquele dia para estar comigo. Ele também me deu um abraço seguido de um skate muito irado com desenho de chamas embaixo. Esse eu não sei onde está agora, devo ter deixado na casa do Simon.

Me arrumei com minha mais nova camiseta azul xadrez, e os meus famosos óculos escuros que vocês amam tanto. Assim fui caminhando até a escola para o meu grande dia especial. Durante essa longa caminhada, acabei escutando a senhora Abigail vindo do outro lado da calçada, ela estava com seu cachorro guia, que havia ficado agitado.

A parte que mais me deixou bravo foi que ninguém parou para ajudá-la. Então, eu, com toda minha empatia, fui correndo auxilia-la. Seu cachorro me encarou diretamente enquanto estava chegando, e logo se acalmou. Nem precisei acalma-lo de verdade. Fazer o que né, eu sou bom no que faço.

A senhora Abigail havia ficado grata pela minha ajuda, e apertou as minhas bochechas com força, como ela costuma fazer até hoje. É Max, você não é a única vítima para as pinças de siri dela. Mas, ela também me deu cinquenta dólares como um “trocado”. Eu até falei para ela que tinha provavelmente errado a nota, mas ela assegurou que esse era o valor correto. Eu estava mais perto que nunca de conseguir comprar o meu O'sphere 720.

Ao chegar nos portões da escola, eu lembro de ver o Ronald conversando com a professora, eu me aproximei cautelosamente, para ouvir a conversa, mas ela já havia terminado. Eu levantei os braços e perguntei:

— Sabe que dia é hoje!?

Ele segurou o próprio queixo olhando para o teto, de uma forma pensativa, e sua expressão se tornou de terror.

— É dia de prova de novo!?

Ao dizer isso, rapidamente se ajoelhou e começou a procurar seus cadernos na mochila para revisar qualquer que seja a prova que ele imaginou que teria. Nerdão.

— Você precisa ser mais responsável com as datas de provas, Ronald. Siga o exemplo do Murphy que está totalmente preparado para a avaliação de hoje.

Espera, realmente tinha prova naquele dia!? Eu não fazia ideia, eu fiquei tão preocupado com meu aniversário que saí correndo até minha sala ver a Jane, se tinha uma prova, ou anotações dela, a Jane saberia me ajudar a tirar pelo menos um B+

— Oi Jane!! Tem prova hoje!?? Sobre o que é? Pode me dar as anotações!?

Ela me olhou meio confusa na hora, mas seu olhar pareceu ficar mais tranquilo de uma hora para outra. Ela com toda calma do mundo, abre seu caderno e me mostra alguns cálculos de matemática que cairia na prova. Eu odeio matemática.

Fui me sentar na minha classe e minha ansiedade começou a atacar, eu realmente não lembrava dessa prova, então fiquei vendo aquelas contas que Jane me passou, sem conseguir raciocinar nada. Então, o horário de aula finalmente começa. Todos ficam em seus assentos. Até aquele garoto que se sentava ao meu lado, estava como sempre, dormindo na aula. Sim, estou falando de você, Simon. Mas, você nunca parece preocupado com as provas, então tava tudo certo.

As aulas não foram nada de especial, tirando o fato de que todos estavam calmos de mais para essa prova. Será que eu era o único que iria tirar uma nota ruim? Estava suando frio, quando de repente, escuto quase todo mundo da turma gritar “Surpresa! Feliz Aniversário!”. Sem dúvidas, eu me assustei e quase cai da mesa. Eu não podia acreditar que eles lembraram do meu aniversário. E também, que me enganaram, não tinha coisa alguma. Fiquei ansioso para nada. Mesmo assim, não sei porque fiquei tão surpreso, eu sou sensacional, e mesmo tendo acabado de me mudar para a cidade, todo mundo já me amava naquele lugar.

Assim que meu susto passou, todo mundo havia começado a sair das suas próprias mesas e empurra-las, juntando todas formando uma mesa ainda maior.

— Gente!! Por tudo que é mais sagrado, parem de arrastar as mesas! — A professora repetia, mas ninguém a dava ouvidos naquele momento. E para piorar a situação caótica, o Ethan assoviou extremamente alto com suas próprias mãos, fiquei impressionado. Outra turma ao lado chegou trazendo balões, pratos de papel, copos vermelhos, e é claro, o mais importante: muita comida, ponche e refrigerante gostoso!

Eu fiz meu caminho até os hot-dogs, enquanto a professora trazia um velho rádio, onde os alunos não perderam tempo para encontrar uma estação com música decente, porém, por conta dessa velharia, nada funcionava direito. Por sorte, Thomas sempre tem uma solução para esse tipo de problema. Ele trouxe um CD com o álbum inteiro dos Slashers! Essa foi a minha introdução a essa banda muito boa que amamos até hoje.

Enquanto comia meu hot-dog e conversava com alguns dos meus colegas, notei uma fila de garotas se aproximar, seus olhos brilhavam e em suas mãos tinham smartphones e canetas com cartas. Elas pediam meu autógrafo e queriam tirar fotos comigo, não vou mentir, naquela hora me senti um superstar. Max, não conta para a Mary, mas o consenso geral da escola é que sou: “bonitinho”.

Depois de uns trinta minutos só de curtição, chegou a hora tão aguardada dos presentes, coisa que eu também não esperava receber. Dentre eles, muitos eram parecidos, como chocolates, o que eu não recuso, mas, não posso comer demais, senão eu perco meus novos status. Porém, o meu presente mais especial, foi de uma garota meio descuidada com aparelhos e uma flor verde no cabelo. Seu presente foi uma pelúcia da famosa formiga-toranja, a formiga que tem uma barriga que lembra muito uma toranja. Eu tenho até hoje, e de todos os meus presentes, esse é aquele que está mais bem cuidado.

— Ei, esquisito, ta afim de um hot-dog, ou um refri? — Noto o Ethan puxando conversa com o Simon, que estava ainda dormindo em sua mesa durante a festa inteira. Eu nem havia notado ele durante esse tempo todo, e presumo que o mesmo tenha acontecido com o restante da turma.

— Já é hora de sair? — Simon levanta sua cabeça de maneira calma, ainda bocejando. Ele olha para seu smartphone, e prepara para sair. Rapidamente vou até ele e converso pela primeira vez com esse nosso cabeludo.

— Opa, e ai! Simon, né? — Ele confirma com a cabeça, sem dizer outra palavra.

— A festa está só começando, cara! Você já vai? Que tal um chocolate? Fica mais um pouco.

— Eu já fiquei mais tempo do que o necessário nessa escola. Tenho mais o que fazer. — Ele diz, enquanto continua caminhando em direção a saída.

— Espera! Eu sei que a gente nem se conhece, nem conversa. Mas você literalmente senta do meu lado, sempre que te vi, você está pra baixo, dormindo, ou nunca nem conversa com ninguém. Está tudo bem? — Simon fica imóvel quando pergunto isso. Seu olhar se vira para mim, sua sobrancelha estava levantada em um tom de surpresa.

— Estou só na minha. Eu acho ridículo eles fazerem uma festa só para você. Se fosse para mim, certeza que iam só esquecer.

— Ah, eu duvido que esqueceriam! Seguinte, me conta quando é, que eu vou te dar um presente tão grandioso quanto qualquer um que eu recebi hoje! — Ele estende a sua mão em minha direção, mas não como um modo de cumprimentar, mas sim, como se estivesse cobrando algo.

— Certo, cade?

— Cadê o que?

— O meu presente. Hoje também é meu aniversário.

Meu coração parou por um segundo, sério que nem a professora lembrou disso? E quais são as chances dos nossos aniversários serem no mesmo dia? Porque ele nunca nem falou nada sobre... Fico parado lá, igual um idiota, enquanto a mão dele lentamente retorna para o bolso de seu moletom.

— Fliperama! — Eu exclamo.

Ele novamente fica com um olhar confuso, enquanto pergunta — Como assim, fliperama? — Eu tiro do meu bolso, o dinheiro que havia juntado.

— Que tal? Eu e você assim que a festa acabar irmos em um fliperama? Tudo por minha conta, acho que é um presente de aniversário digno. — Com um pouco de hesitação, ele me encara por um tempo, antes de pegar o seu celular e digitar uma mensagem. Novamente, volta seu olhar para mim, e acena com a cabeça. Sucesso!

Fui conversar e curtir o resto da minha festa com meus colegas, mas, o Simon não saia da minha mente. Eu perguntava para o restante dos alunos se eles sabiam sobre o aniversário dele, mas, sempre diziam que ele nunca abria a boca para falar sobre nada.

Simon ficou sentado em uma cadeira próximo a porta, enquanto lia um livro. Eu ainda não faço ideia de como alguém consegue se concentrar em uma leitura com todo esse barulho da festa, ainda mais com o som de rock pesado saindo do rádio. Porém, acho que ele gostou da música.

Mais uma meia hora havia passado, e todo mundo já estava guardando os matérias da festa, e arrumando as mesas. Me despedi de todos e agradeci pela festona que eu havia recebido. Fui até o Simon, ainda estava aguardando pacientemente nossa ida ao fliperama.

— Sobre o que é o livro?

— Um catálogo de Criptídeos. Imagino que você não saiba, mas vem do termo “Kryptos” do grego. O livro conta sobre criaturas paranormais, mitológicas e esquisitices científicas. O tipo de coisa que as pessoas insistem em falar que não é real, mas ainda sim, é fácil encontrar provas online.  — Ele diz conforme guarda seu livro.

— Ah... tipo os filmes? — Acho que nunca me senti tão julgado por alguém naquele momento. Mas ele ainda me respondeu.

— Sim, como nos filmes.

Após essa conversa, saímos da escola e fomos em direção ao fliperama, o caminho foi bem quieto. Cada passo ecoava pela minha mente, eu até tentava puxar um assunto ou outro, mas ele só respondia com “sim, não ou talvez”. Para ser sincero, Max. Você tem sorte, que ele debocha da sua cara, pelo menos ele responde. Antes era fechado demais.

Ao chegarmos, eu logo perguntei.

— Curte Briminal Fighters? — E pela primeira vez, ele não pareceu detestar tudo o que eu falei.

— Sim. Meu personagem favorito é o Corvelius, o corvo. Eu jogo direto a versão de console lá em casa.

— Mentira! Você tem o O’sphere 720!? Então é por isso que você está sempre dormindo na sala de aula!

— Nem, eu só tenho sono.

Fomos rapidamente para a versão fliperama do Briminal Fighters: Smoke Edition. Aquele que a gente costuma jogar, Max. Eu peguei meu personagem favorito: Dougbuddy, o cachorro engraçado. Igualzinho eu. E jogamos juntos através das fases, derrubando as ondas de inimigos e quebrando todos os objetos pela frente. Teve uma hora que no jogo, o Simon quebrou a mesa, e jogou a perna dela nos inimigos.

— Eu sempre quis vir jogar essa versão. Ainda acho decepcionante que essa versão o sangue seja substituído por fumaça. Mas para compensar, tem aquele chefe secreto, que explica o porque o sangue deles é fumaça no jogo. — Simon comentou.

— Tem um chefe secreto? Eu jurava que o sangue era fumaça só pela censura.

— Bom, é claro que tem um chefe secreto. E sim, é só pela censura, porém, os desenvolvedores do jogo se animaram tanto numa ideia diferente que eles incorporaram isso na história do jogo. Onde, nessa versão da linha do tempo, o grande inimigo, Gray Smoker, transforma os cidadãos da cidade de CityOne em capangas de fumaça. Então, os Brim Fighters se juntam para impedir que o processo se complete, para desbloquear o final verdadeiro do jogo, você precisa derrotar o Gray Smoker para a cidade voltar ao normal. Existem discussões na internet se isso é uma linha do tempo alternativa, porque na minha visão, é capaz dela se distorcer, ou é uma linha cronológica, tipo Briminal Fighters de consoles e depois o Smoke Edition, como continuação.

E foi nesse momento que agradecemos ao Simon por ter escrito tudo aquilo, porque nesse momento que ele estava explicando, eu tava apanhando para os inimigos da fase, então não consegui acompanhar tudo o que ele disse.

Nós chegamos então, nesse chefe secreto, porém, ele estava nos destruindo no jogo, o Simon é bem bom até, porém, ele tava carregando o time. Em um momento, descobrimos um bug no jogo, onde o chefe estava só tentando me acertar em um local específico, e ele ficava parado olhando para mim. O Simon aproveitou essa chance, e ficou golpeando o inimigo. Porém, em um momento, ele se soltou, e o Simon havia dito para continuar com esse plano, mas eu senti que queria ajudar mais, então fui até ele, e isso acabou ocasionando em nossa derrota. Foi apenas um soco, depois de todo nosso esforço.

Nesse momento, o Simon voltou a ficar calado, será que eu ferrei tudo? O dia estava acabando também, passamos horas no fliperama. E ele mencionou que precisava ir para a casa. Eu perguntei se ele queria companhia até lá, ele só concordou com a cabeça. Ao chegar na casa dele, ele abre a porta, e eu me despeço. Porém, nesse momento, escuto sua voz.

— Você quer passar a noite aqui? Precisamos treinar para nossa revanche contra o Gray Smoker.

Não esperava ter ouvido essas palavras vindas de alguém como Simon, acho que ele realmente gostou do dia de hoje, mesmo que não seja de falar como se sente. E ele é assim mesmo, Max. Por mais que ele seja calado, ou sarcástico, só o fato dele passar seus dias com você, já demonstra que ele sente um grande carinho por cada um de nós.

Nós passamos a noite inteira jogando em seu O’sphere 720, eu conheci a mãe do Simon, senhorita muito gente boa interessada em história. E comemos bolo, a sensação foi indescritível, fazia tanto tempo que eu não provava um bolo desses. E pela primeira vez eu senti que formei uma conexão real com alguém. E desde então, somos amigos inseparáveis, e continuei expandindo essa bela família que eu criei, a Harpia.

Espero que tenha gostado da história, e feliz aniversário para você e para nós do passado.

- Murphy

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